Eu devia ter uns sete ou oito anos, estava sentada no chão da sala com as pernas cruzadas analisando a capa de um CD, o mesmo que eu e minha mãe escutávamos naquele momento. Todas as letras abordavam, inevitavelmente, ainda que com variações de acordo com o estado de espírito do compositor ou do protagonista da história, um elemento essencial: o amor. Minha curiosidade, típica da faixa etária, provocou o questionamento que poderia ter sido embaraçoso, se não tivesse sido respondido com tanta espontaneidade.
- Mãe, por que todas as letras de música falam sobre o amor?
- Porque o amor é um sentimento presente em todos os momentos da vida das pessoas.
Eu ouvi a explicação, atenta. Mas isso não me fez acreditar no amor. Principalmente no amor entre duas criaturas que se dispõe a formar um casal. Ainda diante de sua sabedoria, minha mãe me disse, anos mais tarde, que as pessoas não procuram alguém que as complete. Elas procuram um companheiro. Interpretei isso como a tão famosa fórmula que mistura o amigo e o amante. Não sei se ela acredita nesse tipo de amor. Sei, porém, que eu não fui muito estimulada a crer nele desde a infância, diante do trágico (e digno de um belo romance com tudo para virar best-seller) casamento de meus avós maternos. Em contrapartida, os avós paternos parecem, até hoje, saídos diretamente de um comercial de margarina (ou algo perto disso).
Todavia, tenho um grande amigo que acredita no amor. Mais do que isso, ele acredita no romance. Sempre cética e crítica quando se trata de sentimentos, venho tentando convencê-lo de que “estar amando” não passa de um conjunto de reações químicas que causam distúrbios hormonais e provocam em nós uma espécie de obsessão. Sim! O pobre ser apaixonado torna-se comparável a um louco. E não é maneira de dizer. É o que ocorre, de fato, quando se faz uma análise científica do amor.
A curiosidade sobre o assunto me fez buscar a ajuda de especialistas sobre o amor em universidades do mundo inteiro (pela Internet, é claro. haha). Afinal, meu primeiro namorado me disse, certa vez, algo que me chamou bastante a atenção, ele afirmou que se sentia doente de amor e que a comparação daquela confusão de sensações com uma doença era perfeitamente cabível. Certo estava ele, pois alguns estudiosos acreditam que o amor resume-se a um distúrbio obsessivo-compulsivo.Não é para menos. A Dra. Donatella Marazziti vem para comprovar a gravidade do caso, a psiquiatra da Universidade de Pisa aponta para indícios de que a psicose obsessiva-compulsiva e a paixão dividem vários aspectos em comum. Um exemplo disso é que ambas associam-se a baixos níveis cerebrais de serotonina, substância química fabricada pelo corpo que nos ajuda a lidar com situações de estresse.
Acalmem-se! Essa loucura toda, porém, não passa da fase do flerte, que é quando substâncias como a dopamina, a feniletinamina e a ocitocina, todas comuns no corpo humano separadamente, se encontram e causam a conhecida (mas inexplicável) série de explosões. A dopamina, como bem sabemos, produz a sensação de felicidade. Outros vários hormônios vêm para complementar esse momento que leva o organismo (principalmente o coração!) hora ao céu e hora ao inferno: como a adrenalina (responsável pela aceleração do coração e pela excitação), a noradrenalina (que cuida do lado sexual da relação) e as endorfinas.
Viciante do jeito que é, é natural que todas as melodias tratam do amor, não? Por sorte, apesar de não ser assim rápido como um resfriado, a doença tem prazo para acabar. Não estou tratando, nesse caso, necessariamente do amor, mas sim da paixão. É fato já bastante batido que ela tem prazo de validade: cerca de dois anos ou de 18 a 30 meses.
Pois é, já dizia o sábio Luís Fernando Veríssimo, “o amor tem mil inimigos, mas o pior deles é o tempo. O tempo ataca em silêncio. O tempo usa armas químicas”. Mais uma vez, não é uma poética comparação, mas, sim, um apontamento científico. Pois, com o tempo, o corpo se habitua a disfunção hormonal e passa a precisar de maiores doses dos hormônios em questão para se sentir como no comecinho do relacionamento.
Nesse momento, a ocitocina entra em ação para desempenhar o mesmo papel que ela provoca em uma relação entre mãe e filho: o estreitamente dos laços. Ela acaba por anular o efeito de outros hormônios e causa o (também mais do que conhecido) esfriamento da paixão. Então, toda aquela obsessão diminui e, se os indivíduos permitirem, a atração evolui para uma relação estável, calma e segura (isso só com a ajuda da ocitocina e da vasopressina, como não poderia deixar de ser). Chegando, finalmente, ao que minha mãe chamou de “procurar um companheiro”, no caso, seria encontrar o tal companheiro.A procura pelo parceiro ideal, por sinal, é mais uma de nossas idealizações. Acreditamos piamente que somos nós que escolhemos o ser amado em mais de seis bilhões de pessoas. Outra vez, pura ilusão. Como bons animais que somos (ou não. Hahuauha), uma vez inseridos em determinado ambiente e expostos a convivência durante algum tempo, está pronta a fórmula: vamos, certamente, nos interessar por alguém. Não é dessa maneira que tudo acontece em ambientes como trabalho, escola, grupos de amigos e outros semelhantes?
Quem tiver maiores interesses sobre o assunto pode procurar os trabalhos da Dra. Helen Fisher, antropologista da Universidade Rutgers (ela escreveu o livro The Anatomy of Love, do qual eu não consegui achar nenhuma tradução para o português). Fora todas as minhas (des)considerações referentes ao tão nobre e adorado amor, acho justo concluir com elogios. Porque, no fim das contas, a injeção de hormônios nos faz sentir de bem com a vida. Quanto à loucura, já dizia a bem elaborada filosofia do avô da minha prima: “metade da população é louca e a outra metade é tarada!” (escolha de que lado você está =P).
Fazendo alusão a um dos tantos textos que li para escrever a matéria, posso resumir o amor em três aspectos básicos: euforia, paixão e, obviamente, vício. Agora chega de críticas, pois até mesmo Nietzsche, diante de todo o seu ceticismo e pessimismo, admitiu que “existe muita loucura no amor, mas também existe muita razão na loucura”. Então, apaixonem-se! Caso não faça bem para o corpo, ao menos para a alma é garantido =)
Bibliografia:
http://www.quimicalizando.com
http://www.brasilescola.com
http://boasaude.uol.com.br
http://www.be2.com.br
E outros que perdi no meio do caminho :X
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