"E a gente olhava sem nenhuma pressa. Porque o destino daquelas nossas primeiras viagens era sempre o horizonte."
à toando em...
como uma formiga láá embaixo.
"TUDO PARECIA TÃO SIMPLES.
O mar lá, o céu por cima, tempo pra tudo, pressa pra quê. Estava tudo quieto um dia, uns na praia, outros em casa, o fogão frio, a geladeira quieta, uns na cama e outros na rede, uma tia falou que dia quieto. - Foi num dia assim - falou Tio Raul - que Getúlio se matou. Foi num dia assim que caiu a bomba em Hiroshima. Tá quieto prá nós aqui, mas quem sabe o que vai pelo mundo. Quieto para nós aqui, repetiu fechando os olhos; mas a gente ficou se olhando, tontos com o mundo de mortes e batalhas lá fora. E de repente até o mar parecia estranho."
Os dias de Paola são sempre iguais. Acorda as 5:30, ou pelo menos programa o despertador para acordar as 5:30, mas ela sempre acaba por abrir os olhos dois ou três minutos antes da hora. Então fica olhando para o relógio e esperando os ponteiros se mexerem até o momento em que o barulho repetitivo e irritante começa a soar exaustivamente, arriscando acordar a irmã que dorme no quarto ao lado. Nesse ponto, Paola levanta da cama, abre o armário, pensa por um instante na roupa que vai colocar, querendo inovar, querendo inventar moda, querendo ousar, só que Paola, no final das contas, sempre abre a gaveta da direita, bem embaixo do espelho e pega uma camiseta larga, vai até a porta esquerda do armário e apanha uma calça jeans e amarra o cabelo com um prendedor preto. Tudo cotidianamente da mesma maneira desleixada que no dia anterior. Ela serve café numa xícara amarela, sempre 2/3 da xícara com café e o restante com leite. Paola não gosta de assistir televisão na hora do café. Está sozinha sempre e adora sua própria companhia, ainda preguiçosa tão cedo da manhã. Ela acaricia seu gato, ouve os passarinhos cantarem e vê pela janela o poste aceso e o vizinho da casa azul com uma estradinha de terra passando em seu caminhar desengonçado (digo da casa azul com uma estradinha de terra porque há também a casa azul sem nenhuma estrada). Logo em seguida, Paola sai, procurando pisar dentro dos quadradinhos da calçada e não nas linhas. Seu ônibus passa as 6:15, ou pelo menos era pra passar, mas, na verdade, ele costuma aparecer só uns oito ou dez minutos depois do previsto. Enquanto isso, Paola, rói as unhas, rói as unhas compulsivamente, e quando não há mais unhas para se roer ela rói os dedos. Não gosta de unhas compridas, também não gosta daquelas pelezinhas chatas que estão sempre incomodando, soltas, próximas às unhas. É claro que quanto mais ela rói, mais surgem as tais pelezinhas. Só que Paola não se importa. O ônibus passa, o seu ônibus é um da linha verde, as cadeiras não são confortáveis, mas pelo menos ela consegue ir sentada. A garota dos cílios postiços está sempre lá, sentada bem na frente, encarando o restante dos passageiros com seus olhos pintados e seu meio sorriso. Assim como o menino tímido do segundo ano, ele está sempre lá, só que ele nunca encara as pessoas, contenta-se em baixar os olhos e fixá-los no livro que, por vezes é um livro de cálculo e, por outras vezes, é uma apostila de geografia. A escola está quase vazia quando Paola chega. Aos poucos ela vai enchendo, chegam alunos, pais, professores, coordenadores, empregados, estagiários e quem mais se quisesse ver naquele circo. Sim, Paola costumava pensar, lá com seus botões, que a escola era um circo. Os alunos eram os palhaços; os professores, os animais em exposição, mostrando sua inteligência "quase-humana", sua obediência inegável e seu adestramento exemplar. Depois vinham os pais, eles eram os malabaristas, a mulher barbada, o faquir, o adestrador, o equilibrista, tudo em um só, dependendo do contexto, do humor, da vocação e da boa vontade. O mágico e o ilusionista ganhavam destaque no circo de Paola, porque eram identidades únicas e personalíssimas. O mágico era o professor Rodrigo, de história. Inteligente, divertido, sabe ensinar como ninguém e ainda por cima é super bonito. Um pitel! Era mágica ele fazer Paola aprender história. O ilusionista, por sua vez, era o carinha da sala do fim do corredor. Sobre esse ela preferia não entrar em detalhes. Afinal, precisa falar mais? As aulas eram, da mesma maneira que todo o restante, invariavelmente iguais. Caneta, lápis, quadro, carteira, sono, olhares, desesperos, o dia lá fora, a exponencial, a ditadura, o teatro grego, os bacanais, please, try it again. Até que, exatamente às 12 horas e 50 minutos, soava o sinal e Paola retornava para a parada de ônibus. Pegava dessa vez, um veículo da linha vermelha. Lotado, era preciso ir em pé, ou então se descabelar na luta por um banco. As tardes resumiam-se aos livros de português e história, aos exercícios de química e matemática e aos romances que Paola assistia dia sim, dia não. Ah, e havia as aulas de violão, nesses dias ela gastava um bom tempo das tardes afinando as cordas e tentando tocar Blink 182. Ela suspirava com saudades da voz do Tom e das palhaçadas do Mark. Foi, inclusive, um suspiro daqueles que fez com que o dia de Paola, naquele dia, fosse diferente. O suspiro não foi, exatamente, por causa do Tom e do Mark e nem mesmo por causa do Travis. O suspiro foi por causa do rato. Vamos esclarecer as coisas. O fato é que as noites de Paola também eram monótonas e repetitivas, pouco emocionantes. Ela colocava sua calça rosa de ginástica (isso quando a laranja estava para lavar, porque ela preferia a laranja) e saia correr. Corria sempre o resto de quadra que faltava correr na sua rua e depois ia para as duas ruas de baixo. Corria, sentia o vento bater, suave, em seu rosto. Era bom. Mas era sempre igual. Naquele dia, porém, não foi igual. Naquele dia não, naquela noite. Tudo começou com a calça rosa e a calça laranja, nenhuma das duas estava limpa para a corrida. Paola teve que procurar, durante dezesseis longos minutos, a calça preta. A calça preta era a mais desconfortável, só que era o único jeito. Então ela saiu, abriu a porta, evitou olhar para o chão (não pisar nas linhas é um exercício que vicia) e observou, admirada, que a lua estava cheia. Cheia e alaranjada. Cheia, enorme e alaranjada. Paola calçava 35. Olhar para seus próprios pés, tão pequenos e delicados, a fez pensar na imensidão de todo o mundo. Aqueles pés correndo em um compasso singular, tentando vencer seu objetivo de quatro quadras e mais duas meias quadras, sempre simultâneos e sempre obedientes. Podia ser efeito da lua assim tão cheia ou então dos seus pés assim tão pequenos, mas, naquele instante, Paola decidiu que precisava fazer o caminho inverso, o caminho contrário, o caminho diferente. E não podia ser como a vontade de mudar de roupa, de mudar de estilo; tinha que ser uma vontade realizada, já que era mais que vontade, era um desejo incontrolável de mudar de ares. Por isso ela correu, correu até o cais, correu na beira do rio, correu e viu o rato. O rato era mais ou menos do tamanho de um de seus pés e ele também corria na beira do rio. O rato e Paola eram parecidos, acordavam e dormiam todos os dias de maneiras religiosamente iguais. Cada um tinha sua maneira particular, é claro. O que quero dizer é que Paola percebeu que o rato acordava, que o rato buscava comida, que o rato fugia do que tinha medo, que o rato respirava, caminhava, corria, tropeçava, olhava, observava, temia, sentia, queria. E ela achou que o rato podia querer mais que ela, ou que, quem sabe, ele quisesse com mais força que ela. Naquele momento, por exemplo, ela achava que o rato queria ser indiferente, e ele estava sendo indiferente a ela. O contraste marcante entre ela e o rato era que o rato, além de fugir do que tinha medo, também era capaz de ir atrás do que queria e tinha vontade. E por que Paola não abria os olhos depois do despertador tocar? Por que Paola não vestia uma blusa justa com uma saia ao invés da camiseta e da calça jeans? Por que Paola não deixava de pensar tanto na história pra pensar no presente? Por que Paola queria mudar o mundo e não mudava? Por que Paola não tinha coragem de levantar a voz? Por que não tinha coragem de levantar as mãos, as pernas, os braços, o corpo inteiro? Por que não ia? Por que não fazia? Por que não agia? Por que não vivia? Quero dizer, viver intensamente, viver porque a vida está aí para ser vivida e não para escapar por entre nossos dedos e desfilar em frente aos nossos olhos, exibida, descarada, dizendo sarcasticamente que está fugindo de nós. Suspiro. Outro suspiro, ainda mais alto, mais forte. Mais um terceiro suspiro. Aí ela viu o menino da sala do fim do corredor, sentado em um banquinho, bem perto dali. E Paola correu, corajosa, ousada, atrevida. O menino a encarava, perplexo, mas isso foi só durante um ou dois segundos, porque no próximo segundo ela, sem hesitar, ordenou para si mesma que seus pés número 35 dessem um passo à frente, para que sua cabeça mediana e de longos cabelos encaracolados pudesse se abaixar perto da mesa do menino da sala do fim do corredor e para que sua boca grande e de lábios bastante rosados pudesse beijar, apaixonadamente, a boca dele. Suspiro. Ela ficou olhando para o menino da sala do fim do corredor, desiludida. O ilusionista. Ilusão era, na verdade, querer e não ter ânimo para fazer. Dando meia volta e mais um suspiro, ela retornou para casa, para a vida. A lua iluminava o caminho para que seus pés não se sentissem tão insignificantes. O rato, por sua vez, ficou para trás, pensando em que buraco podia se enfiar para dormir. Já Paola pensava em que buraco podia se enfiar para sobreviver.
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