quarta-feira, 24 de março de 2010

"Eu me contradigo? Pois bem, eu me contradigo. Sou amplo, contenho multidões" - Walt Whitman



Tem uma cena do filme "How to Deal" em que a personagem principal está saindo do velório do namorado da melhor amiga e a chuva desaba para representar uma daquelas tradicionais lavagens da alma.
Para completar, a trilha sonora é "Do you realize?". Do you realize that you have the most beautiful face? Pois é. A moça está no meio de uma multidão, deslocada, e, de repente, tudo parece fazer sentido. Hoje não choveu aqui. Não muito. As coisas também não pareceram fazer sentido, não externamente. Apenas pesquei, sem o menor propósito, a frase a cima na minha memória e notei que ela se encaixa como uma luva no meu momento. Talvez em mim como um todo, sempre. Pode ser que não seja bem uma multidão também, quem sabe sejam somente duas. Se bem que eu, sendo uma só, já dou trabalho, quanto mais multiplicada por dois. Porque se uma quer, a outra, que já havia querido, resolve desquerer. Se uma gosta a outra insiste em desgostar. É como uma balança, dois pesos e duas medidas. Só que uma balança que nunca encontra o equilíbrio. Não possuo equilíbrio. Aliás, sou a fórmula do desequilíbrio total. Balanço, ora com o vento, ora com a estagnação. Vivo caindo, de tão irregular. Ou até mesmo de tão regular. O fato é que caio, sem dó nem dor. Me esborracho, pequena e indiferente, em um chão bem duro. Aí vem a outra versão de mim, estende a mão, piedosa, e eu levanto mais uma vez para repetir o ciclo completamente viciado. É um vício dividir-me em duas. É um vício ainda maior me perder e, lá pelas tantas, voltar atrás, não saber o que fazer e acabar por desfazer o que já se tinha feito. É um erro insistir. O certo é que, hora sim, hora não, vou me arrepender. Nesse momento vou precisar da ajuda de mim mesma para trazer de volta um eu desarrependido. Eu me contradigo? Pois bem, eu me contradigo...


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