Thiago Theodoro debruçou-se sobre os livros, já com água na boca. Queria estar a par de toda a lista pré-disponibilizada pela universidade, ousava pretender ser o melhor e chegar sabendo antecipadamente, de cabo a rabo, tudo que o material do semestre tinha para lhe oferecer. Ele adorava ser o melhor.
“Depois, quando a Revolução foi consolidando-se, e pudemos então estabelecer as novas tarefas que se vêem no horizonte, o companheiro Fidel sugeriu a mudança de nome desta organização. Uma mudança de nome que é toda uma expressão de princípios. A União de Jovens Comunistas está diretamente orientada para o futuro. Está articulada com vistas ao futuro luminoso da sociedade socialista, depois de percorrer o caminho difícil em que estamos agora, que é a construção de uma nova sociedade no caminho da consolidação total da ditadura de classe, expressa através da sociedade socialista, para alcançar finalmente a sociedade sem classes, a sociedade perfeita, sociedade que vocês serão os encarregados de construir, de orientar e de dirigir no futuro!”.
Thiago suspirou, admirado, aquela era sua maior paixão: o desejo por mudar o mundo, por tirar a humanidade da escuridão e levar todos a um mundo diferente, um mundo melhor. Ele queria clarear a mente de seus companheiros. Estava compenetrado demais nas obras que tratavam da vida e dos feitos de comunistas famosos e nem se quer se deu por conta de que alguém batia a porta. Levantou-se em um sobressalto ao escutar passos dentro de seu quarto.
Era Maria Mariana, ela entrara e falava animadamente, quando, de repente, se tocou de que havia invadido a casa do amigo sem nem avisá-lo. Ele a observava, atrapalhado. Ela sentiu-se constrangida.
- Estava passando aqui e pensei em te convidar para ir até a cachoeira. – disse, tentando encontrar uma explicativa plausível para a invasão – Desculpe-me.
- Cachoeira? Claro. Eu adoraria – respondeu Theodoro, conciliador.
- Vista-se rápido então. Vamos esperar você lá no térreo. Depressa.
Dez minutos depois, Maria Mariana, Thiago Theodoro e um grupo de amigos, também pensionistas, dirigiam-se alegremente para a trilha da cachoeira. Miranda era uma moça de cabelos vermelhos, estatura mediana, aparentemente, calada e recatada. Mas suas vestimentas entregavam de imediato o quanto as aparências enganam. Quando se punha a falar mostrava seu enorme potencial, era conhecedora de tudo, pelo menos um pouco, e aquilo que conhecia totalmente, não se enganem, ela não deixava de saber e de informar um milímetro se quer sobre o tal assunto.
Cassimiro era jovial, Penélope era sutilmente perspicaz, Santinha era espontânea e espevitada, Romeno era crítico, audacioso e, como todo bom crítico e absoluto de si mesmo que se preze, era também muito cabeça dura. Andavam conversando, animadamente, despreocupados com tudo mais que não viesse ao caso ali, em seu tão diversificado diálogo de verão.
Nesse ritmo distraído, Maria Mariana, já conhecida por ser estabanada, deixou cair o lenço de seda que delicadamente acomodara no braço esquerdo, servindo de enfeite, alguns passos atrás e só dera-se por conta naquele instante.
- Ora essa! Deixei cair o lenço de seda, foi presente de minha avó. Não vou me demorar em reencontrá-lo, deve estar logo ali atrás. – Dizia isso já dando meia volta.
Seu jeito de correr era desengonçado, balançava as mãos levemente na altura entre os seis e o ventre e punha os pés um a frente do outro ruidosamente. Não demorou muito até que o avistasse lá longe, amarelo como o sol. Suspirou aliviada e correu mais depressa. O lenço estava estendido sob uma sombra amena, Mariana até sentiu-se tentada a parar um instante. Pegou o lenço com pressa e tentou reorganizá-lo em sua antiga posição para que pudesse descansar um instante debaixo da convidativa árvore. Não pode fazê-lo, porém, pois, escondida por entre as dobras do lenço, lá estava ela: uma peçonhenta aranha marrom.
As aranhas marrons, em sua natureza, são animais inofensivos, até que os incomodem. Maria Mariana, no caso, incomodou a aranha que se acomodara de maneira tão aconchegante no lenço amarelo, já que apertou o bichinho contra seu próprio braço. A aranha, como era de se esperar, não pensou duas vezes e soltou todo o seu veneno. Isso, porém, não foi problema para a moça. Ela encarou o animal com desprezo e detectou que fora picada, mas a picada era minúscula e nem sequer doía. Deu um tapa tão forte que a pobre aranha voou para bem longe. E depois completou a volta inteira, dando a segunda meia volta, desta vez para retornar a companhia dos amigos.
Os amigos já estavam na cachoeira. Maria Mariana chegou apressada e tirou a blusa e o jeans surrado na ânsia de pular na água. Lá de dentro, Thiago Theodoro viu a cena e despertou para a beleza da amiga. Quer dizer, ele havia reparado antes no seu rosto angelical e no seu sorriso docemente sedutor. Mas não tivera até então a oportunidade de deparar-se com as curvas que pareciam distraidamente bem determinadas do seu corpo e com seu jeito de tirar a blusa e o jeans surrado tão direta e espantosamente atraente.
Ele teve de se recompor ao ouvir os gritos espevitadamente alegres de Santinha:
- Ei, ei! Vocês viram o que saiu no jornal? Sabem quem está na cidade? Marie Moraes: a cantora de música romântica!
- Ah, fiquei sabendo. – Expressou-se Maria Mariana, desanimada com o assunto e preocupada em procurar pedras no chão para não entrar de vez na água gelada.
- Sou fã do trabalho dela! Acho suas músicas incríveis, a composição é tão simples mas tão tocante. – Era Cassimiro, defendendo o gosto de Santinha.
- Acho simplesmente medíocre. – Acrescentou Romeno, erguendo uma das sobrancelhas para certificar aos demais que desprezava o assunto e a própria Marie Moraes.
- O fato é que, para quem gosta, haverá uma apresentação dela hoje, as 19 horas, na praça central. Quem vai comigo?
- Não gosto tanto, mas também não desgosto totalmente, Santinha. Posso te acompanhar. Aliás, acho que podíamos ir todos, não? Podemos apresentar a cidade devidamente para Thiago Theodoro.
- Quem sabe?! – Disse Romeno, mudando de assunto imediatamente, para não correr o risco de cair no tédio com maiores observações sobre o trabalho de Marie Moraes.
Naquela tarde, brincaram e se divertiram na cachoeira como velhos amigos de infância, todos eles. Aquele clima de cidade pequena fazia com que Thiago Theodoro se sentisse em casa, era como se ele já conhecesse, previamente, não só Maria Mariana, mas também cada cantinho de San Diego. Ele sabia onde virar para chegar à padaria e quantas ruas descer para ir até o clube. Maria Mariana ainda pensava em sua própria existência e esperava, sem saber que estava esperando, aqueles segundos que viriam para mudar sua vida. Os demais idealizavam a noite, o show, os dias de aula, a universidade e tempos surpreendentemente melhores. O que será que os aguardava ainda naquele entardecer? Thiago Theodoro e Maria Mariana descobririam que sua relação poderia ir além da amizade? E Elis Regina, o que estaria fazendo? Quem seria aquela misteriosa cantora? Acompanhem tudo isso e mais no próximo episódio de Pimenta Rosa – O drama mexicano!
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