Ele tinha apenas oito anos de idade. Acho que há momentos na vida de todas as pessoas em que a única saída é mesmo acabar. E, como se fosse uma passagem, como se fosse a maneira mais eficaz de aliviar, ele quis cair. Podia mergulhar. Seria, provavelmente, a maior e mais bem sucedida estrada percorrida por ele até então no mais curto prazo de tempo. Seria possível penetrar naquelas vidas, sem exceção, uma por uma, acompanhar suas ascensões e suas depressões. Era a forma mais pura de desvendar as pessoas. Era também o meio menos doloroso de chocar-se com elas. Chocando-se com o chão. Mas ele tinha apenas oito anos de idade. Eu, no lugar dele, preferi desde sempre cortar o mal pela raiz. Eu acharia mais justo e menos incomodo minha mãe ter acatado as ordens de minha tia ainda no início da gravidez e porto logo um fim na história. Acredito que ele não teve essa opção. Nem eu. O fato é que ele olhou e já estava certo de que a queda o levaria se não ao céu, ao menos a paz. Lembrando que ele tinha apenas oito anos de idade. Décimo sétimo andar: a família que fingia que tudo estava bem do jeito que estava. Cientes de que o mundo é injusto mesmo e iludindo-se com a afirmação de que isso não tem conserto. Décimo quarto andar: um casal; o emprego pagava bem, mas se trabalhar fosse bom ninguém se aposentava. Ser feliz era o de menos. Décimo segundo andar; o pai dizia sempre que a família vinha em primeiro lugar. Faltava apenas rever o conceito de família. Décimo andar: a velha senhora, viúva, desolada, farta da vida, sem coragem para nada. Ela nunca tivera coragem para nada mesmo. Agora, além disso, faltava-lhe, igualmente, a força. Não que ela tenha sido muito forte alguma vez, só que a fraqueza física havia, finalmente, se equiparado a fraqueza de espírito. Sexo andar: a farsa! A mãe ideal, o pai liberal, o filho perfeito, a filha exemplar e o cachorro mais esperto do mundo. Estampavam suas imagens na vitrine para todos, exceto para suas respectivas consciências. Devia doer ter que segurar aquela máscara. Segundo andar: eu. Eu sabia que ele precisava de mim, mas seu egoísmo me sufocava. Afinal, como ele mesmo observou (e ele não foi o único), eu também preciso de ajuda, talvez mais do que ele. Como eu queria estar em seu lugar, com apenas oito anos de idade e a convicção de que pular... Simplesmente pular. Se eu fosse ele, ou então se eu fosse a moça do segundo andar no momento da queda que não aconteceu. Eu não sou ela. E ele não tem mais apenas oito anos de idade. Nossos caminhos já se esbarraram em saltos distintos que, por segundos, coincidiram. Os segundos equivalentes aos da ação de cair. Ele, assim como a senhora viúva, teve medo. Ou então, teve azar. Conclusão similar a que a velhinha do décimo andar tirou de sua própria existência. E eu? Eu vou uma, duas, três, décadas além daquela que lhe inspirou confiança no impacto. Não sei onde ficou meu medo nem minha coragem. Deve ter ficado parado no tempo, no instante em que minha mãe disse para minha tia “Não vou!” e eu para sempre me arrependi.
Considerações: Gostei desse ursinho perdido, acho que ele representa um pouco as personagens, presas, deparando-se com a tempestade através de um vidro. As vezes eu me sinto tão desamparada quanto eles (não hoje, que se observe =P), por isso escrevi o texto. Sim, houve inspiração, mas nós sempre lemos as pessoas da forma que melhor nos convém e, no final de tudo, nos decepcionamos com nossa própria criação. Sem perder as esperanças =) há também quem supere as expectativas e nos surpreenda. Não foi dessa vez.

2 comentários:
"Sexo andar: a farsa!". não seria 'sexto'andar? hehe. ótimo texto =]
HAHAHA. adorei o "Thiago Theodoro". Seria, a Elis Regina comentou comigo inclusive. Mas enfim, deixa assim, chama-se mensagem subliminar publicitário =P
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