sábado, 5 de dezembro de 2009

PIMENTA ROSA - O drama mexicano [3]

TERCEIRO EPISÓDIO:

O caminho para o pensionato nunca lhe pareceu tão pequeno, pensou Elis Regina quando eles rapidamente chegaram ao Pimenta Rosa, um velho casarão rosa com janelas brancas, já não tão brancas assim. Alguns galhos de árvore mal-podados e um pouco de mato cobriam a entrada do lugar, e a pintura já descascando das paredes fazia aos que não conheciam o vilarejo pensar que o casarão estava abandonado. Corujas colocavam-se a posto, nas grades desregulares do enorme portão de ferro que anunciava aos visitantes o nome do lugar, aguardando para atacar o primeiro cachorrinho desavisado que aparecesse. Em letras douradas e em uma grande placa de bronze envelhecida, reluziam, esbeltas, as palavras “Pimenta Rosa”.

No quintal da casa prevalecia o cinza das estranhas estátuas de filósofos que eram mantidas ali há mais de século. Ao longe, havia um projeto de capela. Projeto por causa do tamanho, porque era realmente minúscula. Também porque diziam que de santo ou divino aquele espaço não tinha nada. Havia quem jurasse que vira almas de outro mundo dentro da capelinha. Só que isso fica para outro capítulo da nossa história. As luzes que começavam a se acender com o fim da tarde denunciavam a presença de vida lá dentro.

Apesar do aspecto misterioso e tenebroso que a luz fraca do anoitecer deixava no Pimenta Rosa, Thiago Teodoro se animou com a perspectiva de ter achado um lugar para ficar - aquela simpática desconhecida tinha aparecido em uma ótima hora.

Dona Amilanar era a dona do pensionato. Uma velha senhora, alta, pálida e extremamente magra, com um constante mau-humor e tendências para se meter, a todo custo, na vida de seus pensionistas e criticá-los sempre que surgisse qualquer oportunidade. Apesar de sua obsessão por incomodar seus hóspedes, ela era incrivelmente calada e nada se sabia sobre sua vida. Reza a lenda que quando moça ela apaixonara-se perdidamente por um viajante hippie que acampara na cidade por um período, dera-lhe esperanças, arrancara-lhe sua inocência e depois partiu, deixando em seu ventre o fruto desse amor de verão. Ninguém sabia, entretanto, o que tinha acontecido com o filho do casal.

Naquele entardecer, ao ouvir tocar o sino da campainha, Dona Amilanar desceu suavemente as escadarias negras que desembocavam na sala de estar da mansão e, em sua postura cuidadosamente ereta, abriu a porta para os visitantes. Elis Regina e Thiago Theodoro entraram, apressados e amedrontados com os trovões que indicavam que as nuvens, finalmente, tinham decidido desabar sobre San Diego.

Os vinte e um gatos espalhados pelo pensionato (Dona Amilanar era obcecada por gatos) apressavam-se em acomodar-se nos cantos estrategicamente mais quentes e confortáveis. Os relâmpagos iluminavam a cidade e acendiam diversos sentimentos no peito de cada morador do lugar.

Elis Regina achava que a chuva vinha para simbolizar a entrada em uma nova era de sua vida, ela acreditava piamente que tudo podia melhorar. Thiago Theodoro matutava sobre a natureza que, de forma peculiar, dava-lhe boas vindas e com os trovões indicava o ruído das mudanças.

Será?

1 comentários:

Thiago Theodoro disse...

"Corujas colocavam-se a posto, nas grades desregulares do enorme portão de ferro que anunciava aos visitantes o nome do lugar, aguardando para atacar o primeiro cachorrinho desavisado que aparecesse"

=x