SEXTO EPISÓDIO
Seu Antônio José calçou suas pantufas herdadas do pai e foi, preguiçosamente, abrir os portões de ferro da padaria. Dona Benedita ainda estava com os olhos entreabertos, foi com um bocejo que levantou as persianas das janelas de sua casa e deixou entrar na sala de estar o colorido das flores de seu belo jardim. Seu Alfredino, o leiteiro, já estava montado na carroça, a caminho do centro da cidade, pronto para completar a rotina de mais um dia de entregas.
Eram cinco e meia da manhã e os galos cantavam, atiçando o instinto de caça dos vinte e um gatos do pensionato. Maria Mariana, ainda sob o toldo do Supermercado Sampaio, com a cabeça suavemente acomodada no colo de Thiago Theodoro, ia retomando a consciência, sem pressa. Trocou a imensidão branca pela iluminação do clarear do dia. Estava tonta e desorientada. Levantou a cabeça e o tronco com leveza e tentou colocar-se em pé, mas não conseguiu, caiu novamente, dessa vez sentada.
Ao cair deu-se por conta, sem saber bem o que fazer, de que estivera ali, deitada com um estranho. Não se recordava de como fora parar lá, mas tinha a mais absoluta certeza de que precisava sair depressa. Seu primeiro impulso foi o de colocar-se a gritar. Não tinha forças, entretanto. Foi aí que respirou fundo e cerrou os olhos com força, só para procurar mentalmente a solução mais óbvia para aquela cena distinta e desvinculada de seu cotidiano.
Ao abrir os olhos levou um susto ainda maior que o anterior. Pois percebeu, apavorada, que conhecia o suposto desconhecido. Não o conhecia de San Diego, nem das viagens para fora do estado, nem da excursão para Cuba, nem de qualquer lugar habitável ou desabitado no atual contexto do mundo. Não o conhecia de outro lugar senão de sua imaginação, de seus sonhos tão inconscientes que ela até então não saberia dizer que os havia sonhado. Não até aquele momento. Ela o conhecia simplesmente porque conhecia a ela mesma.
Thiago Theodoro acordou, espreguiçando-se, e viu, imediatamente, o rosto confuso de Maria Mariana.
- Bom dia! – disse ele.
- Oi... O que aconteceu comigo? Aliás, o que aconteceu conosco? De onde nos conhecemos?
Ele apenas sorriu, tentando responder de forma amigável o que ela já entendera, eles não haviam se conhecido fisicamente, descobriram-se somente pelos múltiplos paralelos imaginários pelos quais suas mentes andavam quando estavam cansadas demais de suportar a realidade.
- Você estava caída no chão, em plena tempestade. Acredito que desmaiada. Não consegui acordá-la. Então a trouxe para cá. Em seguida peguei no sono. Sou novo na cidade, meu nome é Thiago Theodoro.
- Maria Mariana – disse ela, desconfiada.
- E eu não mereço nem uma exclamação de agradecimento, Mariana?
- Desculpe – ela, finalmente, sorri – Ainda estou zonza com tudo o que ocorreu. Novo na cidade? Você já tem lugar para ficar? Porque eu moro em um pensionato, a Pimenta Rosa, não sei se...
- Pimenta Rosa? – ele não se conteve e a interrompeu – Eu estou hospedado lá. Que coincidência. Conheci uma moça ontem que me levou até lá.
Ela fez mais uma vez a cara de desconfiada. Em seguida sorriu animada, mas não deixou de esconder uma pitada de ironia:
- Você não pára de conhecer as moças da cidade por um minuto, não? Vamos juntos para lá. Estou cansada, com fome.
- Também estou com fome! E você deve estar fraca. Vamos, segure meu braço, eu te ajudo.
Os dois seguiram pela estrada desgastada por tantas histórias cruzadas e mal resolvidas, correndo o risco de se misturar a todas essas histórias. O diálogo transcorria e eles se empolgavam contando suas vidas, seus feitos, seus desfeitos e suas desgraças. Maria Mariana não tinha exatamente o que chamavam de profissão
Ela escrevia livros, fabricava vidas, compreendia histórias antes não compreendidas por ninguém. Criava contos, crônicas e às vezes até se arriscava pelo mundo enigmático da poesia. Era com pesar, porém, que constatara, já há alguns anos, que todos aqueles trabalhos não eram suficientes para sobreviver. Não ali. Seu plano B fora, então, procurar outro trabalho. Conversou com o diretor chefe do jornal semanal da cidade, que por um acaso era também o dono do açougue, e arranjou emprego como responsável pelos obituários e pela sessão agrícola do jornal. Seu ordenado não era grande e ela sonhava com muito mais. Não de salário, mas de conquistas. Estava, entretanto, conseguindo sobreviver, temporariamente.
2 comentários:
"Escrevia pela simples razão de que aquilo a fazia viajar. E nada era mais prazeroso para ela do que viajar. Talvez chocolate."
Hehehe Eu nunca vi ninguém ter tanto obsessão por chocolate como você, criatura.:P
Ficou ótimo esses episódios! Precisamos escrever o resto.. E eu aguardo ansiosa pela continuação dessa história, que nem nós mesmos sabemos o fim.
=]
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