quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

PIMENTA ROSA - O drama mexicano [5]

QUINTO EPISÓDIO

A chuva caia descompassada, desesperada, apressada em derramar-se sobre todas aquelas casas, sobre todas aquelas cabeças, pretendendo lavar uma por uma, todas aquelas almas. E eu não sei quanto a cabeça, os braços ou o corpo inteiro dos demais moradores de San Diego, mas no que se refere a Maria Mariana, com certeza a tempestade conseguira, sem maiores dificuldades, atingir seus presunçosos anseios. Ela estava estendida no chão, desmaiada, na transição do branco infinito que mais se parece com o meio termo entre o viver e o morrer no qual os desmaios nos fazem desembocar, completamente ensopada pela água ácida e que, entretanto, passava-se por límpida, da chuva.

Thiago Theodoro, a alguns passos dali, levantava os braços para o céu e pensava em declarar, como em uma prece, seus mais íntimos desejos que agora, como se a vida pudesse ser como um conto com final feliz, vinham se realizando um a um. Ele queria agradecer, ele acreditava sem dúvidas no cosmos e no universo conspirando a seu favor, como dissera Paulo Coelho em um livro que Thiago se dedicara a ler em um tranqüilo dia da sua remota pré-adolescência. Ele andava aos pulos, girando e ziguezagueando, apenas para exibir sem pudor o ápice de sua alegria.

Foi quando, de repente, em meio a sua desatenção, ele deparou-se, surpreso, com Maria Mariana caída ali, no chão, sozinha, entregue aos ratos e à ousadia daquela tormenta que inquietava a cidade. Ele arregalou os olhos deixando transparecer o susto, ajoelhou-se rapidamente e chamava-a “Moça, moça acorde! Por favor, moça, responda!”, sem saber como agir, sem ter uma reação cabível para uma situação incomum daquelas.

Decidiu levá-la para baixo do toldo do antigo cinema de San Diego, hoje um prédio quase abandonado, alugado por um casal que pretendia tornar o local um aspirante a supermercado. O plano não fora, porém, muito bem sucedido. O pequeno supermercado estava fechado, provisoriamente, conforme informava a placa escrita a mão na porta de entrada, por motivos de força maior. A força maior, diziam as más línguas, era o controle sanitário que reprovará o estabelecimento no quesito higiene.

Era, contudo, uma maneira eficaz de se proteger da chuva, caso Thiago Theodoro ficasse encolhido contra a parede (o vento era forte, fazia com que a água se espalhasse e jorrasse para todos os cantos). Ele ergueu a desconhecida com cautela e levou-a para perto da parede repleta de rachaduras do Supermercado Sampaio. Debaixo da luz fraca da lâmpada prestes a queimar do hall de entrada do outrora cinema de San Diego, Thiago pode ver os traços da moça. Teve a estranha sensação de que já a conhecia de tempos remotos. Como se tivesse convivido com ela em outra dimensão, em outra vida, mas fora uma convivência tão intensa que poderia reconhecê-la sem hesitar em qualquer outro tempo ou lugar.

Enquanto o jovem estudante perdia-se em seus devaneios, tentando propor teses para si mesmo a fim de se auto-explicar como identificara o rosto desacordado deitado em seu colo, tentando entender como sabia que já tinha visto aquelas feições antes, o temporal foi passando, calmamente. Tão calmo quanto a noite, que se despediu dos sonos ansiosos dos san-dieguenses e foi, levando consigo a chuva, despertar o medo dos cidadãos do outro lado do mundo. Em San Diego, por sua vez, quem despertava eram os habitantes do povoado.

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